Filmografia

Terra em Transe

Cartaz do Filme

Ficha Técnica
Glauber fala
Comentário & Sinopse
Martin Scorsese Apresenta Glauber Rocha

 

FICHA TÉCNICA

Ficção, longa-metragem, 35mm, preto e branco, Rio de Janeiro, 1967. 3.100 metros, 115 minutos. Companhias produtoras: Mapa Filmes e Difilm; Distribuição: Difilm; Lançamento: 8 de maio de 1967, Rio de Janeiro (Bruni- Flamengo, Coral, Caruso, Festival e outros cinemas do circuito Lívio Bruni); Produtor executivo: Zelito Viana; Produtores associados: Luiz Carlos Barreto, Carlos Diegues, Raymundo Wanderley, Glauber Rocha; Gerente administrativo: Tácito Al Quintas; Diretor: Glauber Rocha; Assistentes de direção: Antônio Calmon, Moisés Kendler; Argumentista e roteirista: Glauber Rocha; Diretor de fotografia: Luiz Carlos Barreto; Câmara: Dib Lufti; Assistente de câmara: José Ventura; Fotógrafos de cena: Luiz Carlos Barreto, Lauro Escorel Filho; Trabalhos fotográficos: José Medeiros; Eletricistas: Sandoval Dória, Vitaliano Muratori; Engenheiro de som: Aluizio Viana; Montador: Eduardo Escorel; Assistente de montagem: Mair Tavares; Montadora de negativo: Paula Cracel; Cenógrafo e Figurinista: Paulo Gil Soares; Trajes de Danuza Leão: Guilherme Guimarães; Letreiros: Mair Tavares; Carta: Luiz Carlos Ripper; Música original: Sérgio Ricardo; Regente: Carlos Monteiro de Sousa; Quarteto: Edson Machado; Vozes: Maria da Graça (Gal Costa) e Sérgio Ricardo; Música: Carlos Gomes (O Guarani), Villa-Lobos (Bachianas n.3 e 6), Verdi (abertura de Othelo); canto negro Aluê do candomblé da Bahia, samba de favela do Rio; Locações: Rio de Janeiro e Duque de Caxias (RJ); Laboratório de imagem: Líder Cine Laboratórios; Estúdio de som: Herbert Richers; Prêmios: Prêmio da FIPRESCI (Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) e Prêmio Luis Bunuel no XX Festival Internacional do Filme, em Cannes/1967; Golfinho de Ouro para Melhor Filme - Rio de Janeiro/1967; Coruja de Ouro para melhor ator coadjuvante (José Lewgoy) Rio de Janeiro/1967; Prêmio Air France de Cinema para melhor filme e melhor diretor - Rio de Janeiro, 1967; Prêmio da Crítica, Grande Prêmio Cinema e Juventude - Locarno, Itália; Prêmio da Crítica (Melhor Filme) - Havana, Cuba; Melhor Filme, Menção Honrosa (Melhor Roteiro), Melhor Ator Coadjuvante (Modesto de Sousa), Prêmio Especial a Luiz Carlos Barreto (pela fotografia e produção) - Juiz de Fora (MG);

Elenco: Jardel Filho - PauloMartins; Paulo Autran - D. Porfírio Diaz; José Lewgoy - D. Filipe Vieira; Glauce Rocha - Sara; Paulo Gracindo - D. Júlio Fuentes; Hugo Carvana - Álvaro; Danuza Leão - Sílvia; Jofre Soares - Padre Gil; Modesto de Sousa - senador; Mário Lago - secretário de segurança; Flávio Migliaccio - homem do povo; Telma Reston - mulher do povo; José Marinho - Jerônimo; Francisco Milani - Aldo; Paulo César Pereio - estudante; Emanuel Cavalcanti - Felício; Zózimo Bulbul - Repórter; Antonio Câmera- índio; Echio Reis, Maurício do Valle, Rafael de Carvalho, Ivan de Souza;
Participações especiais: Darlene Glória, Elizabeth Gasper, Irma Álvares, Sônia Clara, Guide Vasconcelos; Figuração de época: Clóvis Bornay.

GLAUBER FALA :

Terra em Transe

 "O cinema prolonga a vida. Estas imagens estarão eternas. Além da morte."

Roberto Rosselini dizia que é mais fácil fotografar o mundo do que fotografar um rosto. O cinema, me disse Alexandre Kluge, deve ser polifônico. É uma nova arte e presa ainda ao naturalismo/realismo do romance. O romance, os senhores sabem, é uma expressão do século XIX. É, pois, a linguagem da burguesia. O cinema é a linguagem do capitalismo, isto é, do século XX. Cinema, jornalismo, televisão. O cinema, porque foi realizado até bem pouco tempo por homens com formação no século passado e formou e deformou o público e a crítica. E a maioria dos intelectuais. E, o que é mais grave, a maioria dos cineastas. O cinema é um instrumento de coração do capitalismo. Ou do policialismo. Liberdade, no cinema, sempre foi crime. Rimbaud, para lembrar um nome conhecido, que é ponto pacífico na poesia, se aparecesse fazendo filme como escrevia levava ovo na cara. Idem Cézanne. Até mesmo Van Gogh. E estes são artistas do século passado, nem mais vanguarda são considerados. Por que o cinema tem de ficar seguindo a narrativa de Maupassant?

Quando um intelectual vem me dizer que não gostou de Terra em Transe porque não entendeu, dá vontade de perguntar a ele se poesia ou música ele entende tudo como entende uma reportagem, isto é, no sentido explicativo, óbvio, ululantérrimo!"

 Glauber Rocha

 

"Convulsão, choque de partidos, de tendências políticas, de interesses econômicos, violentas disputas pelo poder é o que ocorre em Eldorado, país ou ilha tropical. Situei o filme aí porque me interessava o problema geral do transe latino-americano e não somente do brasileiro. Queria abrir o tema "transe", ou seja a instabilidade das consciências. É um momento de crise, é a consciência do barravento."

 

COMENTÁRIOS & SINOPSE:

 "(...) Porfírio Diaz, napoleão de opereta, alma de    escorpião e fariseu empunhando o crucifixo e a negra bandeira facista, serve de corpo inteiro à Compañia de Explotaciones Internacionales, sob pretexto de servir a Cristo. O senador Diaz, odiando o povo, pretende coroar-se imperador de Eldorado para impor aos sub-homens eldoradenses sua todo-poderosa vontade de super-homem. Vieira, governador de Alecrim, província de Eldorado, é um demagogo populista que se elege à custa do voto dos camponeses e operários para depois, no poder, ordenar o fuzilamento de seus líderes. Don Julio Fuentes é a expressão máxima da burguesia progressista de Eldorado. Dono de tudo -- minério, petróleo, siderurgia, imprensa, televisão -- sente-se, em determinado momento, esmagado pela concorrência da Compañia de Explotaciones Internacionales e, num furor impotente, admite aliar-se às forças populares para chegar ao poder. Fuentes, entretanto, é branco, e com os brancos se entende. Ao frigir dos ovos, manda ao diabo suas boas intenções nacionalistas e se transforma em tapete para Diaz, pinça do carangueijo imperialista em Eldorado.

Há o poeta, Deus meu, o sórdido, o belo, o generoso, o  ingênuo, o puro e maculado poeta Paulo Martins, homem  dividido como um pedaço de víscera é dividida por uma  faca, homem que sangra, e sonha, se encontra, e se   aliena,  e dança, e regouga, e tenta, e busca, e ama, e  rodeia. Paulo Martins é a consciência em transe de  Eldorado. Ele, poeta e soldado, soldado e poeta, truão e  herói, se dilacera na tentativa de abraçar as contradições  de Eldorado para, no escuro do caos, forjar o instrumento  de luta capaz de redimir o país. Paulo Martins tenta  confiar, tenta acreditar, tenta submeter-se aos esquemas  burocráticos de uma dialética esvaziada de originalidade  e  de heroísmo. Tudo e todos falham, falha Diaz, de quem  o poeta era amigo, falha Vieira, a quem o poeta procurou  servir, falham os revolucionários que, em nome de velhas  fórmulas esclerosadas, pretendem manipular a realidade,  longe, muito longe de seu selvagem coração.

Há um momento em que Paulo Martins está só. Arma-se o  golpe de morte nas derradeiras possibilidades  democráticas de Eldorado, o imperialismo desfere sobre o crânio do país uma porretada que o fende, Vieira renuncia à luta, o povo, perplexo e manietado, não sabe o que fazer, os burocratas, articuladores abstratos de uma estratégia inviável, usam suas jaculatórias como quem recita um exorcismo impotente. O golpe está em marcha, a negra bandeira fascista se abate sobre o país. O poeta está só, na sua insônia. Esta insônia, porém, se ilumina com o clarão de uma consciência que arde. O poeta arde na noite de Eldorado, e sua solidão solidária se enche de rumores, queixas, gemidos, sofrimentos e lágrimas que a noite do país absorve e emudece.

Eis que o poeta -- consciência em vigília -- decide assumir, ao preço da própria vida, a situação limite que o dilacera, dilacerando Eldorado. Sozinho, sozinho, tão só como quem nasce -- ou como quem morre -- o poeta, com o povo, pelo povo e para o povo, lança seu peito de encontro aos fuzis que condenam Eldorado ao papel de um país que se agacha. Em nome de todos, encarnando o direito de todos à vida, à liberdade e à dignidade humana, o poeta arromba as barreiras da polícia e tomba crivado de balas.(...)"

Hélio Pellegrino, Jornal do Brasil, Rio, 30/08/81, trechos de texto escrito em 1967, quando do lançamento do filme

           Vigorosa e visionária alegoria política sobre o Brasil e a América Latina tendo como temas centrais o populismo, as utopias libertárias de esquerda e o concerto barroco de diversas culturas (africana, índia, branca), Terra em Transe tem um entrecho ficcional que já antecipa o questionamento de Glauber às noções ainda resistentes de trama e narrativa. Abolindo a ordem cronológica e adotando um acento fortemente operístico e carnavalizante, é um dos filmes-manifesto do Cinema Novo. A “história” se passa em Eldorado, país imaginário da América Latina, onde o poeta e intelectual burguês Paulo Martins vê frustrar-se a sua esperança de que o Governador da Província de Alecrim e líder político Dom Felipe Vieira (José Lewgoy) seria uma alternativa política ao conservador Dom Porfírio Diaz (Paulo Autran), ditador fascista que apela ao misticismo para preservar o poder. Entre estes, se interpõe a figura do capitalista Júlio Fuentes (Paulo Gracindo), que apesar de se declarar de esquerda acaba se aliando ao ditador Diaz. Ao lado de Sara (Glauce Rocha), uma intelectual comunista, Paulo Martins não vê outra solução a não ser a violência revolucionária suicida. 


 

MARTIN SCORSESE APRESENTA GLAUBER ROCHA


O Estado de São Paulo, Caderno 2/ Cultura, Domingo, 22 de Agosto de 2001. Matéria de Maria do Rosário Caetano

 

 

Nelson Rodrigues fala de  "Terra em Transe": ("Correio da Manhã, RJ, 16 de maio de 1967

 

“Durante as duas horas de projeção, não gostei de nada. Minto. Fiquei maravilhado com uma das cenas finais de Terra em Transe. Refiro-me ao momento que dão a palavra ao povo. Mandam o povo falar, e este faz uma pausa ensurdecedora. E, de repente, o filme esfrega na cara da platéia esta verdade mansa, translúcida, eterna: o povo é débil mental. Eu e o filme dizemos isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e será assim eternamente. O povo pare os gênios, e só. Depois de os parir volta a babar na gravata (...) Terra em Transe não morrera para mim (...) sentia nas minhas entranhas o seu rumor. De repente, no telefone com o Hélio Pelegrino, houve o berro simultâneo: ‘Genial!’ Estava certo o Gilberto Santeiro (...) Nós estávamos cegos, surdos e mudos para o óbvio. Terra em Transe era o Brasil. Aqueles sujeitos retorcidos em danações hediondas somos nós. Queríamos ver uma mesa bem posta, com tudo nos seus lugares, pratos, talheres e uma impressão de Manchete. Pois Glauber nos deu um vômito triunfal. Os Sertões de Euclides da Cunha também foi o Brasil vomitado. E qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil precisa ser essa golfada hedionda.” (cit. Por Tereza Ventura, em A Poética Polytica de Glauber Rocha. Funarte, Rio de Janeiro, 2000)

 

ABAIXO : TRECHO DO ROTEIRO DE DIRETOR DO FILME   

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PAULO
Depende.
JORDAN
-Eu me sinto cansado. Sofri uma desilusão muito grande... Quando voltar ao Rio me procure... Podemos conversar com calma.

Lamartine se exalta, o Cardeal a seu lado.

LAMARTINE
-Precisamos fundar novas cidades, abrir grandes estradas, construir escolas! Os detratores não sabem que Juscelino fez o mais importante Governo do Brasil: construiu Brasília, desfraldou a bandeira do nacionalismo, Três Marias, Furnas _ a força do desenvolvimento, a aurora do nacionalismo nasceu deste homem cujos erros tinham a mesma grandeza de seus acertos... Precisamos de trezentas cidades no Amazonas, precisamos restaurar o espírito dos bandeirantes, o espírito do Pe. Antônio Vieira!

As vacas começam a berrar. Os vaqueiros cercam as vacas, montando nos seus cavalos. Começa um aboio Jordan e o Piloto levam Lamartine para o helicóptero. Bisquê idem. Silvino observa ao fundo. Sanfonas, movimento _ divertem-se.
Paulo sente calor, alheio àquilo, bebe cerveja. Ouve o barulho do helicóptero.
O helicóptero sobe, Silvino olha, Bisquê vem ao fundo, corre em direção a Silvino.

BISQUÊ
-Grande homem, o Dr. Lamartine!

O Embaixador fixa Silvino, assustado. Silvino o abraça. O barulho do helicóptero.

SILVINO
-O senhor vai servir aonde agora?
BISQUÊ
-Gostaria de servir no México...
SILVINO
-Qual sua posição política?
BISQUÊ
-Um liberal conservador ou melhor um conservador liberal...

Silvino dá uma bruta gargalhada e bate na barriga do Embaixador. O helicóptero neste momento passa sobre elas, levanta o vento e espalha o ruído. Bisquê foi por terra, sob o vento, tenta se compor, Silvino sorri, Paulo entra em campo com o copo de cerveja, Silvino grita.

SILVINO
-Embaixador, pra se subir no Governo Federal é preciso ser de esquerda. Comunista não, veja bem... De esquerda!

CAM sobe com música. TRAV aéreo. Os vaqueiros cercam a boiada que se movimenta. O americano, no jipe, descreve um círculo, buzinando gritando como um cowboy.
CAM afasta-se, estoura uma música carnavalesca. CORTE.

Seqüência 6

TRAV. DESCONTÍNUO. Mulheres fantasiadas dançando histéricas. Estamos num baile de Carnaval, num Clube pequeno. Animação.
Uma mulher loura dá um longo beijo em Paulo. Paulo fantasiado simplesmente, de marinheiro, afasta-se, um pouco bêbado e se dirige ao bar. Confusão generalizada. Consegue disputar um uísque.
Subitamente atacam Paulo de lança-perfume e gritos e beijos. São Marina e Álvaro. Paulo, feliz com a descoberta, os beija.
TRAVS DESCONTÍNUOS. Corre o carnaval. Paulo, Marina e Álvaro se divertem, felizes.
Detalhes de um préstito, clima de sonho. Sucedem-se os préstitos, trombetas.
A Escola de Samba desfila, insólita e agressiva. Oscilam bandeiras.
Estoura o Baile do Municipal. São seqüências rápidas e fortes, dando a passagem de tempo do Carnaval.
TRAV LATERAL, veloz, passa levando Paulo, Marina e Álvaro, alegres, confundem-se com outros foliões, cresce.

Seqüência 7

Um bar marítimo. TRAV LENTO, um grupo de foliões, madrugada de quarta-feira de Cinzas. Os foliões ainda cantam uma marcha-rancho, poética, As Pastorinhas.
Numa mesa estão Álvaro, Marina e Paulo. Conversam, informais, tontos e sonolentos. Esta cena tem um tom de sonho. A marcha-rancho ao fundo é substituída por outra.

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