O Leão de Sete Cabeças
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Título Original: Der Leone Have Sept Cabeças.Ficção, Longa-metragem, 35mm, colorido (Eastmancolor), 2.600 metros, 95 minutos. Roma, Itália, 1970. Companhia produtora: Polifilm; Produtores: Gianni Barcelloni, Claude Antoine; Diretor de produção: Giancarlo Santi; Gerente de produção: Marco Ferreri; Diretor: Glauber Rocha; Assistente de direção: André Gouveia; Argumentistas e roteiristas: Gianni Amico, Glauber Rocha; Diretor de fotografia: Guido Cosulich; Som direto: José Antônio Ventura; Montadores: Eduardo Escorel, Glauber Rocha; Letreiros: Francesco Altan; Música: Folclore africano, Baden Powell e uma versão do hino nacional francês cantada por Clementina de Jesus; Locações: Congo Brazzaville.Elenco: Rada Rassimov - Marlene, Jean-Pierre Léaud - pregador, Giulio Brogi - Pablo, Hugo Carvana - português, Gabrielle Tinti - agente americano, René Koldhoffer - governador, Baiack - Zumbi, Miguel Samba - Samba, André Segolo - Xobu, Aldo Bixio - mercenário; povo e dancarinos do Congo; Dedicatória: a Paulo Emilio Sales Gomes;
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"É uma história geral do colonialismo euro-americano na África, uma epopéia africana, preocupada em pensar do ponto de vista do homem do Terceiro Mundo, por oposição aos filmes comerciais que tratam de safaris, ao tipo de concepção dos brancos em relação àquele continente. É uma teoria sobre a possibilidade de um cinema político. Escolhi a África porque me parece um continente com problemas semelhantes aos do Brasil."
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"(...)O Leão de Sete Cabeças é uma co-produção ítalo-francesa, filmada na África. Diz Glauber que ele pretende ser
uma “elaborada denúncia do colonialismo e do subdesenvolvimento”, apresentando uma Europa vermelha e um agente secreto norte-americano, também vermelho, escravos um do outro num país tropical. Os colonialistas mantém os negros como escravos. Nesse mundo movem-se também um padre português e um mercenário alemão.
Uma revolução é sufocada de maneira sangrenta e os vermelhos decidem, com seus amigos, levar ao poder um representante da burguesia africana. Para isso elegem presidente o senhor Xobu. Mas um rebelde africano e um guerrilheiro latino-americano organizam uma nova revolução. Os brancos, provavelmente vencidos, são levados ao patíbulo, enquanto da selva saem simbólicas fileiras de negros que cantam “Oh África, oh África. (...)"
Jornal da Tarde, Salvador, 26/06/70
Revista ContraCampo:
Pablo,
guerrilheiro latino-americano, e Zumbi, líber negro rebelde, unem-se para
libertar o continente africano a ferro, fogo e sangue. No processo
revolucionário que desencadeiam, eles enfrentam o mercenário alemão que,
auxiliado pelo agente norte-americano e pelo assessor português, governa em nome
da misteriosa Marlene. Observados pelo onipresente pregador messiânico
interpretado por Jean-Pierre Léaud, que tanto denuncia a chegada da besta
sacrílega capaz de derrotar os santos, quanto anuncia os dois insurgentes como
emissários da justiça divina, os personagens que se digladiam em O Leão de
Sete Cabeças encarnam quinhentos anos de dominação branca sobra a África
que, do colonialismo ao imperialismo, modifica-se para continuar sempre a mesma.
O
Leão de Sete Cabeças é a primeira
produção de Glauber Rocha no exílio. De acordo com o próprio cineasta, trata-se
de "uma história geral do colonialismo euro-americano na África, uma epopéia
africana, preocupada em pensar do ponto de vista do homem do Terceiro Mundo, por
oposição aos filmes comerciais que tratam de safáris, ao tipo de concepção dos
brancos em relação àquele continente. É uma teoria sobre a possibilidade de um
cinema político. Escolhi a África porque me pareceu um continente com problemas
semelhantes aos do Brasil". De fato, já no início do longa-metragem, Zumbi
relembra aos espectadores o começo do martírio africano com a vinda do
colonizador europeu, que escravizou as diversas nações ("tribo" é termo
pejorativo e eurocêntrico) e as enviou para as lavouras de tabaco, de algodão,
de cacau e de cana-de-açúcar da América, desestruturando os núcleos familiares,
as relações sociais e toda a economia de subsistência local. No contato do o
continente negro com os mercadores brancos, nasce o Terceiro Mundo e o
subdesenvolvimento: África, América Latina e Ásia transformadas em fornecedores
de matérias-primas e de trabalho barato para as potências do hemisfério norte,
conectadas e articuladas entre si pelo comércio global capitalista criado e
difundido a princípio por Portugal e Espanha, depois pela Holanda e pela
Inglaterra e, finalmente, apropriado pelos EUA no curso do século XX.
Se o
agente norte-americano reclama dos governos da África ao compará-los com os da
América Latina (onde ele precisa apenas se queixar do Estado para que um outro
inteiramente novo apareça e o substitua), é porque o continente africano sofreu
a exploração mais violenta e desumana, a ponto de se encontrar privado dos
mecanismos ocidentais que visam à manutenção da ordem capitalista, ou seja, a
democracia e o estado de direito. Sem que as instituições originárias da Europa
consigam se firmar, e impossibilitados de propagar suas tradições culturais,
econômicas, políticas e sociais – consideradas bárbaras, incultas e
incivilizadas pelos conquistadores –, resta aos povos da África somente a
escravidão, estrutura de controle da qual O Leão de Sete Cabeças parte.
Entretanto, no vasto painel histórico montado por Glauber Rocha, apresentam-se
igualmente as diversas mutações por que atravessam as estratégias de poder
exercidas pelos colonizadores. Assim, enquanto o mercenário alemão e seu aliado
português remetem ao passado colonial, o agente dos EUA aponta para o presente
imperialista: como resultados dos "novos tempos", Xobu, líder da burguesia
nacional, é feito presidente, embora a incapacidade do marionete em sufocar as
revoltas dos trabalhadores – mesmo com os reformistas clamando pelo bom senso e
pelo fim dos radicalismos – acabe por favorecer o uso da força militar, na
seqüência em que civis são assassinados, pelas costas, a tiros de metralhadora.
Em Um
Filme Falado, Manoel de Oliveira compreende a História não como a sucessão
cronológica de eventos restritos e isolados, mas sim enquanto a fusão de todos
os acontecimentos e temporalidades que originam o presente e que com ele
co-existem, sob a forma de memórias e de reminiscências. Para Glauber Rocha, em
O Leão de Sete Cabeças, também está em jogo a capacidade de impregnação
do Tempo (que pode ser vista na obra de Rithy Panh, em que as feridas abertas
pela máquina de matar do Khmer Vermelho permanecem latejando no Camboja
contemporâneo): são os quinhentos anos de colonização e de massacre sistemático
euro-americano na África que se acumulam e que, ao deixarem marcas irrevogáveis,
dão o rosto da miséria absoluta e da ofensa estrangeira com que as nações
africanas convivem atualmente. O cineasta poderia somente "documentar" o
desenrolar dos fatos em alguma ex-colônia – por exemplo, a transformação do
ex-Congo francês (independente em 1960), onde se realizaram as filmagens, na
República Popular do Congo em 1970, de orientação leninista, não sem antes que
dois presidentes fossem depostos por golpes militares. No entanto, ele prefere
colocar lado a lado os vários protagonistas dos processos de submissão e de
libertação do continente africano, conforme já indica o título original do
filme, Der Leone Have Sept Cabeças, que mistura as línguas dos países
conquistadores. Por conseguinte, mesmo que flerte com a dialética marxista, ao
contrapor ricos e pobres, negros e brancos, norte e sul, europeus e africanos,
O Leão de Sete Cabeças a ultrapassa, visto que se abre para a
multiplicidade de tempos, de personagens e de eventos, sejam eles atuais ou
virtuais, que compõem a História geral da África que Glauber Rocha pretende
contar.
Se a
História da África narrada por Glauber Rocha ultrapassa a dialética
materialista, ela igualmente deixa para trás a simples noção de alegoria
política. O cineasta já havia explorado os limites, problemas e impossibilidades
do cinema alegórico (ao contrário de Cacá Diegues em Os Herdeiros, ou
Walter Lima Jr. em Brasil Ano 2000) – que necessita da construção de um
espaço mitificado, portanto fora do Tempo e sujeito ao Destino, onde a ação
humana e a transformação que dela decorre não têm vez – tanto em Terra em
Transe (o desespero do herói ao descobrir que nada pode fazer para a alterar
a realidade que se impõe), quanto em O Dragão da Maldade Contra o Santo
Guerreiro (o sertão de Antônio das Mortes, onde Deus e Diabo se enfrentam,
em vias de ser substituída pelo país moderno das rodovias e dos postos de
gasolina). Em O Leão de Sete Cabeças, embora os personagens tenham
presenças teatrais – teatralidade sempre posta em perspectiva pelo registro
documental do ambiente e dos figurantes africanos, que no mais das vezes se
restringem a assistir às encenações, conferindo estranheza aos longos
planos-seqüência que constituem o filme –, a África torna-se o lugar no qual as
forças sociais, econômicas, políticas e culturais envolvidas no processo
colonial interagem e se alteram mutuamente: no continente que o cineasta revela,
não existem mitos estáticos ou retóricas mortas, pois vida e morte fervilham a
cada canto, seja nos festejos que coroam a liderança de Zumbi, seja nas
manifestações anti-imperialistas comandadas pelo guerrilheiro Pablo, seja nos
olhares estupefatos das crianças que observam a marcha dos soldados invasores,
de metralhadoras em punho.
Na
epopéia de O Leão de Sete Cabeças, diferente de Terra em Transe, a
revolução não somente é possível como também provável: enquanto Marlene é
crucificada, africanos saem das matas para tomar definitivamente o poder. O
canto que entoam é a voz mesma do subdesenvolvimento: "Oh África, oh África...".
Paulo
Ricardo de Almeida
Lutar no território dos Sonhos
Em ``Eztetyka do Sonho'', Glauber vai dar outro salto ao rejeitar a leitura sociológica da esquerda, que ``racionaliza'' a miséria ao encaixá-la no teatro da luta de classes, como um ``mal necessário'' do capitalismo, superada apenas com a supressão deste sistema. O que Glauber parece dizer é que nenhuma explicação histórica, sociológica, marxista ou capitalista, pode dar conta da complexidade e tragédia da experiência da pobreza, algo, para ele, da ordem do ``icognoscível'', do ``impensado'' e do ``intolerável''.
É esse ``impensado'' que leva Glauber a uma nova visada, explicitada no seu segundo manifesto, ``Eztetyka do Sonho'', escrito em 1971, seis anos depois do primeiro, e apresentado aos alunos da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Texto escrito depois da experiência de filmes como Terra em Transe, Câncer, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerrreiro , além do projeto América Nuestra ( roteiro de 65/66) e do cinema feito depois da sua saída do Brasil, em 70: os filmes do exílio, O Leão de Sete Cabeças e Cabezas Cortadas,
A impotência e a perplexidade com os rumos políticos do Brasil pós-golpe de 64, a exacerbação da repressão política no país, na década de 70, a tragédia e opressão das ditaduras latino-americanas, o transe político e de consciências, a fragilidade de intelectuais, militantes, estudantes e artistas; o conformismo popular, levam Glauber a uma nova questão. Lutar não no campo da razão opressora, mas nos territórios da desrazão e do mito.
Ivana Bentes (Professora de Cinema).