Filmografia

História do Brasil

 

Ficha Técnica:

Ano:1974 , Direção: Glauber Rocha, Co-Direção: Marcos Medeiros, Produção: Renzo Rosselini, Brasil/Itália, Duração: 166’, p&b

Bitola: 35 mm, Gênero: documentário

SINOPSE:

Filme de montagem realizado no exílio de 1971 a 1973 entre Cuba e Roma, e finalizado em Paris em 1974. Depois de rodar o “Leão de 7 Cabeças” e se declarar um cineasta “tri-continental” Glauber se junta em Cuba ao líder Marcos Medeiros que regressava das guerrilhas de 1968 para montar um inventário político da América Latina. Em “off” a certa altura, Glauber dialoga com Medeiros, por exemplo, sobre o perfil dos presidentes militares que se sucediam no poder.

É considerado um trabalho “semi-acabado”de Glauber que tem um certo caráter pedagógico e procura  através de uma montagem dialética fazer uma revisão crítica da colonização, da luta de classes, do Messianismo e da implantação dos governos populistas no Terceiro Mundo. Há uma cronologia nos fatos apresentados que,apoiados em vasta iconografia (filmes, gravuras, fotos,etc...) operam contudo, associações “livres” que permitem ao espectador uma visão “polifônica” da “Hystorya do Brazyl”.

Com narração de Jirges Ristum, o documentário recorre a diversas imagens pertencentes ao acervo  do ICAIC (Instituto Cubano) que mostram Fidel Castro e Chê Guevara em plena Revolução até cenas de filmes brasileiros como “São Paulo S/A”, “Assalto ao Trem Pagador” bem como imagens documentais do Golpe de 64 no Brasil pontuadas por canções tropicalistas. “História do Brasil”ficou censurado no país desde sua realização sendo liberado para exibição apenas em 1985.

 

 Comentários:


”Glauber parecia mais interessado em dialogar com a pesquisa historiográfica e   sociológica do que com a produção artística do seu tempo. Esta projeção do cineasta sobre o campo do conhecimento científico teve, de fato, repercussões importantes na feitura de História do Brasil, visto que o filme retomava os temas recorrentes pelos autores citados. Há um esforço de interpretação dos temas centrais da historiografia, como o caráter da revolução burguesa e o enfrentamento das lutas sociais e políticas desde a colonização até o regime militar de 1964, dentre outros. Neste sentido, o filme parece articular história e revolução, na qual o presente, desvendado como potencial portador da ruptura política e cultural, construiu uma interpretação sobre um passado de lutas contra a dominação”.

Mauricio Cardoso (Doutorando, História Social/USP) em Glauber Rocha: Exílio, Cinema e História do Brasil

 

“O desencontro entre as idéias glauberianas e o contexto cubano pode ser paralelamente identificado, no universo pessoal do cineasta, ao desencontro íntimo entre o artista, "livre criador", e o intelectual atuante, socialmente exposto. Ismail Xavier, ao analisar brilhantemente a figura de Paulo Martins, nos expõe a ambigüidade desse personagem, imerso, como o Glauber que busca respostas a seus anseios militantes de cineasta, num "trajeto de oscilações, atropelos e contradições na lida com o povo"34. O dilema entre a não-identificação com a arte pedagógica e o propósito de atingir o grande público, permeado pelo heroísmo trágico de quem, admirador de Che, acreditava na transformação mas já vislumbrava os descaminhos da "revolução instituída", compõem um quadro comparável à "expressão do desengano" identificada em Terra em Transe por Xavier.

Desengano e desencanto são termos que poderiam definir o estado de espírito de Glauber em relação ao governo cubano, após sua experiência de um ano na ilha. Ao mesmo tempo, o principal saldo artístico resultante dessa temporada também testemunha um descompasso, agora entre as idéias e a tela, uma vez que o filme semi-acabado História do Brasil, é dentre todas as obras glauberianas, a mais narrativa, explicitamente marxista-dialética e voltada à visão retrospectiva do cinema brasileiro, bastante distante, portanto, do posicionamento explícito em "Estética do Sonho". Entretanto, como Glauber nunca deixou de ser plural, na vida e na arte, há que se destacar que o período de trabalho no ICAIC também rendeu a montagem do filme Câncer, produzido no Brasil em 1968, cuja proposta era a pesquisa formal, o improviso, e segundo o cineasta, "uma experiência técnica quanto ao problema da resistência do plano cinematográfico à direção"35. Considerando as filmagens posteriores — Der leone has sept cabezas e Cabezas Cortadas -, verificamos certa continuidade da proposta do experimentalismo estético persistente em Glauber, que se soma às declarações e projetos a eles contemporâneos, de viés didático, menos esteticamente ousados, como História do Brasil ou o precedente roteiro de América Nuestra”.

Mariana Martins Villaça (Historiadora – USP) - Rev. Bras. Hist. vol.22 no.44  São Paulo  2002

 


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