"Di Cavalcanti Di Glauber"
Titulo Original: "Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de sua Quimera, Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável."
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Não-ficção, curta-metragem, 35mm, colorido, 480 metros, 18 minutos. Rio de Janeiro, 1977. Companhia produtora: Embrafilme; Distribuição: Embrafilme; 1a exibição: 11 de março de 1977, Cinemateca do MAM, Rio de Janeiro; Lançamento: 11 de junho de 1979, Rio de Janeiro (Roma-Bruni, Rio Sul, Bruni-Copacabana, Bruni-Tijuca); Diretor de produção: Ricardo Moreira; Diretor: Glauber Rocha; Assistente de direção: Ricardo (Pudim) Moreira; Fotógrafos: Mário Carneiro, Nonato Estrela; Montador: Roberto Pires; Música: Pixinguinha (Lamento), Villa-Lobos (trecho de Floresta do Amazonas), Paulinho da Viola, Lamartine Babo (O Teu Cabelo Não Nega), Jorge Ben; Locações: Museu de Arte Moderna, Cemitério São João Batista (Rio de Janeiro); Prêmio: Prêmio Especial do Júri - Festival de Cannes/1977; Outros títulos: Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua última quimera; somente a ingratidão, essa pantera, foi sua companheira inseparável; Di-Glauber; Di Cavalcanti, Di ( das) Mortes. Locutor: Glauber Rocha; Textos: Vinícius de Morais (Balada do Di Cavalcanti), Augusto dos Anjos (trecho de Versos Íntimos), Frederico de Moraes (trecho de artigo sobre Di Cavalcanti), Edison Brenner (anúncio da morte de Di);Elenco: Joel Barcelos, Marina Montini, Antonio Pitanga.
Obs: A exibição do filme está interditada pela justiça desde 1979, quando da conceção de liminar pela 7a. Vara Cível, ao mandado de segurança impetrado pela filha adotiva do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti.
"A morte é um tema
festivo pros mexicanos, e qualquer protestante essencialista como eu não
a considera tragedya . . Em Terra em
Transe o poeta Paulo Martins recitava que convivemos com a morte...etc...
dentro dela a carne se devora - e o cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na
Terra do Sol, morre profetizando a ressurreição do sertão
no mar que vira sertão que vira mar...
Matei muitos personagens? Eles morreram por conta própria, engendrados
e sacrificados por suas próprias contradições: cada massacre
dialético que enceno e monto se autodefine na síntese fílmica,
e do expurgo sobram as metáforas vitais.
As armas de fogo, facas e lanças são os objetos mortais usados
por meus personagens, mas a rainha Soledad bebe simbolicamente veneno
no final
de Cabeças Cortadas
e
os mercenários de O Leão de Sete Cabeças são enforcados.
Em Câncer,
Antônio
Pitanga estrangula Hugo Carvana, assim como Carvana se suicida em Terra em Transe.
Em Claro foi usado um canhão para matar um mercenário no Vietnam
e dois personagens morrem afogados em Barravento,
além das multidões incalculáveis massacradas por Sebastião,
Corisco, Diaz, etc.
Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que
se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso
o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica
condição. A Festa, o Quarup - a ressurreição que
transcende a burocracia do cemitério. Por que enterrar as pessoas com
lágrimas e flores comerciais? Meu filme, cujo título, dado por
Alex Viany, é Di-Glauber, expõe duas fases do ritual: o velório
no Museu de Arte Moderna e o sepultamento no Cemitério São João
Batista. É assim que sepultamos nossos mortos.
Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser festivo em todos os casos (e
sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano di Cavalcanti) projetei
o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di gostaria que fosse,
lui. . . o símbolo da Vida...
No campo metafórico transpsicanalítico materializo a vitória
de São Jorge sobre o Dragão. E, no caso de uma produção
independente, por falta de tempo e dinheiro, e dada a urgência do trabalho,
eu interpreto São Jorge (desdobrado em Joel Barcelos e Antônio
Pitanga) e Di-O Dragão. Mas curiosamente Eu Sou Orfeu Negro (Pitanga)
e Marina Montini, dublemente Eurídice (musa de Di), é a Morte.
Meus flash-backs são meu espelho e o espelho ocupa a segunda parte do
filme, inspirado pelo Reflexos do Baile, de Antônio Callado, e Mayra,
de Darcy Ribeiro. Celebrando Di recupero o seu cadáver, e o filme, que
não é didático, contribui para perpetuar a mensagem do
Grande Pintor e do Grande Pajé Tupan Ará, Babaraúna Ponta-de-Lança
Africano, Glória da Raça Brazyleira!
A descoberta poética do final do século será a materialização
da Eternidade."
Di (Das) Mortes, GlauberRocha, texto mimeografado, distribuído na sessão do filme em 11 de março de 1977 na Cinemateca do MAM.
©Tempo Glauber