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Não-ficção, 35mm, preto e branco, 600 metros, 22 minutos. Rio de Janeiro, 1968. Diretores: Glauber Rocha e Afonso Beato; Fotógrafo: Afonso Beato; Locação: Centro da cidade do Rio de Janeiro.
"Eu não posso precisar nem
o mês nem qual das passeatas foi filmada, não me lembro. Glauber
queria fazer um filme sobre aquele momento, mas ainda não tinha um projeto
ficcional, fizemos apenas um registro documental. A repressão política
e a falta de liberdade de expressão impediram a continuidade do projeto.
Em fins de 1969, Glauber e eu saímos do país."
(Depoimento de Afonso
Beato à Embrafilme, em 24/jan./1985)
Momento Histórico:
A Passeata dos 100 Mil foi um dos eventos mais importantes da luta
contra a ditadura militar. No dia 26 de junho de 1968, aproximadamente
cem mil pessoas ocuparam as ruas do Centro do Rio de Janeiro para
protestar contra o ambiente de opressão e violência que dominava a
sociedade brasileira do período.
A partir de 1967, as passeatas estudantis foram a forma mais
significativa de oposição por parte da sociedade ao regime militar,
agregando cada vez mais manifestantes por evento e refletindo a
crescente insatisfação com a ditadura. No segundo semestre de 1968, as
autoridades militares passaram a perseguir líderes estudantis,
políticos e artistas críticos ao regime. No dia 13 de dezembro de
1968, o governo edita o AI-5, ato institucional que acabava
definitivamente com as liberdades individuais e reprimindo
violentamente todo ato de insubmissão contra a ditadura.
Mistérios de "1968"
O documentário inacabado "1968" é o filmenigma de Glauber Rocha. Co-dirigido pelo fotógrafo Affonso Beato, pouco se sabe das motivações e dos planos dos autores com este trabalho, que continua um desafio aberto para os pesquisadores da obra glauberiana.O próprio Affonso Beato afirma que não se lembra de quase nada dos 22 minutos flagrados daquele seminal momento histórico. É um olhar terno e envolvente, sem a rigidez que costumamos ver em registros políticos desta natureza.
Seria um filme ensaio visando um projeto mais ambicioso ?
Ainda está por se pesquisar, por exemplo, o mês exato em que as cenas forma captadas nas ruas do centro do Rio de Janeiro. Quais eram exatamente aquelas passeatas. Se trata especificamente da passeata dos "100 Mil" ?
É bom lembrar que este foi o ano de produção do "Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" e que pela retenção dos negativos na aduana do Rio, Glauber resolveu fazer "Câncer", uma de seus experiências mais radicais. Desta forma, "1968" foi rodado antes, depois ou entre "Câncer" e o "Dragão". E as imagens da passeata, figurariam num futuro filme de Glauber a exemplo de "Maranhão 66", cujas cenas documentais foram incorporadas à "Terra em Transe" ?
Enquanto Beato não desvendo sua memória, aguardamos que por entre os documentos que estão sendo recuperados no Tempo Glauber, surja alguma luz para esclarecer o que estava por trás de "1968". Mistério há de pintar por ai !
Joel Pizzini
©Tempo Glauber