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Biografia
| 1968 |
O roteiro de “Terra em Transe” é publicado na revista L'Avant-Scène du Cinéma de janeiro e na revista alemã Film. Em março, Glauber começa os preparativos para filmar “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (“Antônio das Mortes”), "um sangrento western político [...] em que retomo o personagem de Antônio das Mortes, dez anos mais tarde, num sertão modernizado e ainda bárbaro". Problemas de produção e financiamento atrasam as filmagens em Milagres, na Bahia. Glauber desiste de ir à Paris encontrar o produtor de “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, Claude-Antoine, devido as manifestações de maio de 68. Enquanto aguarda as filmagens na Bahia, roda em agosto, no Rio, com uma câmera Éclair 16 mm, “Câncer”, um filme experimental, com situações improvisadas em torno de violência, racismo e sexualidade. Registra as passeatas estudantis contra a ditadura no curta “1968”. Glauber interrompe as filmagens de “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” para participar da Semana do Cinema Novo em Nova York. Lá, encontra Elia Kazan, assiste as filmagens de “The Arrangement” e tenta obter com Kazan os direitos para o cinema de “Wild Palms” romance de William Faulkner que coloca “o Herói entre a Dor e o Nada [...] Faulkner prefere a “Vidorida” (sobrevivência na luta!)". O projeto não seria realizado, mas é retomado por Glauber ao longo da sua trajetória. No Brasil, participa de um seminário sobre cinema e televisão na América Latina, organizado pela UNESCO, na Universidade de São Paulo. O encontro traz ao Brasil Roberto Rosselini, Edgar Morin e o cubano Alfredo Guevara. Co-produz “Brasil ano 2000”, longa-metragem de Walter Lima Jr. estrelado por Anecy Rocha, irmã de Glauber e mulher do diretor. Nas cartas, começa a falar em sair definitivamente do Brasil. Projetos: em carta ao produtor Claude-Antoine propõe realizar uma série de televisão tendo o personagem Antônio das Mortes como protagonista. Escreve os argumentos de treze episódios e a apresentação da série. Glauber propõe nesse período os mais diferentes projetos, ainda pensando em filmar alguns deles no Brasil: a) um musical chamado “O Rei do Bicho”, "uma adaptação bem livre de uma comédia musical de Brecht, “A ópera dos 3 vinténs", sobre a vida de um gângster. "Conheço as Escolas de Samba e todos os grandes sambistas e dançarinos. Aqui, para esse gênero de filme não é preciso as coreografias de Hollywood. Nós temos tudo". b) "Um roteiro de aventuras de espionagem no meio exótico da Amazônia. Estive na Amazônia e tenho um material fabuloso que poderia, REALMENTE, ser mais fascinante que James Bond [...] Não quero a direção, não quero nem assinar o roteiro. Quero vender porque tenho necessidade de dinheiro". c) "Temas tirados dos romances de Miguel Angel Asturias". d) "O projeto de Calígula, de Camus, para ser rodado nas ruínas de Pompéia", com o ator Jean-Pierre Léaud. e) Projeto de "adaptação da peça Galileu Galilei, de Brecht, para uma época futura de polêmica sobre a conquista do espaço, um projeto que pode também interessar Orson Welles".
• Passeata dos 100 Mil no Rio, com estudantes e intelectuais protestando contra a ditadura. O Ato Institucional n° 5 fecha o Congresso. Explodem as guerrilhas urbanas. Gilberto Gil lança o disco “Tropicália” e Caetano, a música "É proibido proibir". Cria-se o Conselho Superior de Censura. O cinema underground faz um clássico, “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, e “Jardim de Guerra”, de Neville d'Almeida. O Cinema Novo lança “Fome de Amor”, de Nelson Pereira dos Santos, “O Bravo Guerreiro”, de Gustavo Dahl. Surge o cinema da "Boca do Lixo" paulista, com Carlos Reichenbach, João Callegaro, Antonio Lima. Manifestações estudantis no Maio de 68 na França.
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| 1969 |
Glauber propõe ao produtor americano Daniel Talbot adaptar “Amor de Perdição”, romance do português Camilo Castelo Branco, transformando-o numa "tragédia de amor no mundo subdesenvolvido", com João Gilberto ou Baden Powell no papel principal e música de Tom Jobim. Viagem à Europa para exibir “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” no Festival de Cannes de 1969, que daria à Glauber o Prêmio de Melhor Diretor, além do prêmio da FIPRESCI, o Luis Buñuel, e o da Confederação Internacional de Cinema de Arte e Ensaio. Glauber atribui a premiação ao entusiasmo de Luchino Visconti, no júri, pelo filme. Na Bélgica, o filme ganha o Primeiro Prêmio do Festival de Cinema de Plovaine. No Brasil, recebe o Troféu Coruja de Ouro e o Prêmio Adicional de Qualidade do Instituto Nacional de Cinema. A revista peruana Hablemos de Cine publica entrevista de Glauber em abril, sob o título "Glauber: o Transe da América Latina". A revista francesa Cahiers du Cinéma publica entrevista de Glauber no número de julho/agosto. Em Cannes, antes da premiação do “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, Glauber recebe a proposta de Pere Fages, produtor de cinema de Barcelona, para realizar um filme de 100 mil dólares a ser rodado na Espanha, com total liberdade criativa. O filme seria “Cabezas Cortadas”, e Glauber propõe Orson Welles no papel do ditador latino-americano que seria feito por Francisco Rabal. Viaja a Paris, onde o produtor Claude-Antoine o convida para fazer um filme na África, que seria “O leão de 7 cabeças”. Viaja à Roma e participa do Festival de Veneza. Na Itália, em Roma, participa de “Vent d'Est”, filme de Jean-Luc Godard sobre o cinema político. Glauber faz o papel de um cineasta revolucionário que aponta o caminho do cinema do Terceiro Mundo. Viaja para Brazzaville, no Congo, em setembro, para filmar “O Leão de 7 Cabeças”. De lá escreve para a mãe dizendo "estou na África. Aqui não tem tanto bicho assim. Tem muito calor. é igual à Bahia. o pessoal é ótimo. o trabalho é difícil". Roda o filme em 22 dias. No meio das filmagens o ator francês Jean-Pierre Léaud tem um ataque histérico, os congoleses acham que faz parte do filme. Em carta para o cubano Alfredo Guevara, do ICAIC, pede que mostre “O Dragão” a Fidel Castro e recomenda o guerrilheiro IItoby Alves Correa, "o Hélio", na estadia dele em Cuba.
• Médici assume a presidência. É criada a Embrafilme. A repressão leva ao fechamento dos cineclubes. “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, é o grande sucesso do Cinema Novo. São lançados “Os Herdeiros”, de Cacá Diegues, “Brasil ano 2000”, de Walter Lima Jr., “Memória de Helena”, de David Neves, “Copacabana me Engana”, de Antônio Carlos Fontoura. O cinema underground marca presença com “O Anjo Nasceu” e “Matou a família e foi ao Cinema”, de Júlio Bressane, “Meteorango Kid”, de André Luís Oliveira, “Meu Nome é Tonho”, de Ozualdo Candeias. Reginaldo Farias faz “Os Paqueras”. O Cinema Novo se recusa a participar do Festival de Cinema do Rio de 1969 como protesto político. Durante o festival o cineasta Joaquim Pedro de Andrade é preso e solto por pressão das personalidades internacionais presentes ao evento. A ALN e o MR-8 seqüestram o embaixador americano em troca da libertação de quinze presos políticos. Carlos Marighella lança o Minimanual do guerrilheiro urbano. O capitão Lamarca passa à luta armada. |
| 1970 |
Glauber viaja para a Catalunha, na Espanha, onde filma “Cabezas Cortadas”, entre fevereiro e março. Vai a Nova York acompanhar a estréia de “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. Volta para a Espanha, onde conclui a montagem de “Cabezas Cortadas”. No Brasil, a censura exige que o filme, falado em espanhol e catalão, seja dublado em português para receber certificado de filme brasileiro. “O Leão de 7 Cabeças” é recusado pela Comissão de Seleção do Festival de Cannes. Em julho, “Cabezas Cortadas” é exibido pela primeira vez no Festival de San Sebastian e em agosto é lançado no Festival de Veneza. Os dois filmes geram polêmicas e críticas entusiasmadas e indignadas. Glauber não vai aos festivais. Lançados na França, os filmes não são bem recebidos.
• Volta ao Brasil e, em novembro, passa a escrever para o semanário O Pasquim. Viaja para Petrópolis, Cabo Frio e Bahia. Rompe seu relacionamento como Rosa Maria Penna. Conhece Letícia Maria Moreira de Souza. O crescimento da repressão e a prisão de Walter Lima Jr. o levam a desistir de trabalhar no Brasil. Entre os projetos não realizados está um filme adaptado do romance “Terras do Sem-fim”, de Jorge Amado para a RAI, e uma adaptação do romance “Menina Morta”, de Cornélio Penna. Passa o Natal no Rio. Numa carta do Rio, de agosto de 1970, à produtora Mapa Ltda. propõe um filme baseado em “Quincas Berro d'Água”, de Jorge Amado, com direção de Glauber e orçamento de 150 mil dólares. • Torna-se obrigatória a exibição de filmes brasileiros 112 dias por ano, depois 98 dias. Guerrilheiros seqüestram os embaixadores da Alemanha Federal, Suíça e Japão em troca da libertação de presos políticos. O Brasil ganha a Copa de 70, a euforia é capitalizada pela ditadura. Os filmes do Cinema Novo são marcadamente alegóricos: “Azyllo Muito Louco”, de Nelson Pereira dos Santos, “Os Deuses e os Mortos”, de Ruy Guerra, “Pindorama”, de Arnaldo Jabor. Os cineastas Júlio Bressane e Rogério Sganzerla criam a produtora Bel-Air, e vão para o exílio. O cinema underground produz “O Pornógrafo”, de Callegaro, “Orgia ou O homem que deu Cria”, de Silvério Trevisan, “Jardim de Espumas”, de Luiz Rosemberg Filho. Walter Lima Jr. faz “Na boca da Noite”, que, mal lançado no Rio, é pouco visto. A censura proíbe “Prata Palomares”, de André Faria, e “O país de São Saruê”, documentário de Vladimir de Carvalho. |