Jornal O Estado de São Paulo, SP,Caderno2/Cultura, 26 de Agosto de 2001. Autor da matéria: Maria do Rosário Caetano.

"A Verdade Sobre Scorsese e Glauber Rocha"


Que papel teve Martin Scorsese, o diretor de Táxi Driver, na recuperação de Terra em Transe, para muitos a obra-prima de Glauber Rocha? A resposta é: nenhum.
O que Scorsese vem fazendo - e merece todos os elogios por isso - é empenhar seu prestígio na divulgação de cinemas de outros tempos e geografias. Afinal, como bom descendente de italianos, ele defende a idéia de um mundo plural. Ele não quer um planeta povoado só por cultores de filmes de ação e bobagens juvenis do tipo American Pie. O diretor de Touro Indomável acaba de completar a primeira parte de monumental História do Cinema Italiano, vista pelo prisma de um garoto que cresceu no bairro italiano de Nova York e, mais tarde, tornou-se um dos mestres do cinema moderno.
Pois em sua monumental primeira parte da história do cinema peninsular, Scorsese encontra formas de falar em Bergman e ... Glauber Rocha! Claro que em pequenos atalhos, pois seu rio cinematográfico corre para o Mediterrâneo. Para Rosselini, Fellini, Visconti, De Sica, Pasolini e outros mestres da terra de Patrone.
Scorsese dedicou a Glauber, na Cahiers du Cinéma ( números 500) um belo artigo. Em entrevistas a jornalistas brasileiros, ele sempre externa sua paixão por Terra em Transe. Gosta tanto do filme que adquiriu uma cópia, em 35 milímetros, para sua filmoteca particular.
Carlos Augusto Calil, hoje diretor do Centro Cultural São Paulo, dirigia a Cinemateca Brasileira quando Fabiano Canosa, espécie de embaixador do cinema brasileiro nos EUA, procurou o Tempo Glauber para obter cópia de Terra em Transe para o diretor americano. Explicou a D. Lucia Rocha e aos herdeiros de Glauber, que o filme se destinava à coleção particular de Scorsese. Acertou o preço com os herdeiros e a Cinemateca providenciou nova cópia a partir de contratipo restaurado em 1983/84 pela Embrafilme. O próprio Calil, que na época dirigia a empresa, supervisionou a restauração de Terra em Transe e - ainda em 1984 - fez circular por várias capitais brasileiras, a mostra Todo Glauber. Muitos brasileiros - jovens em especial - puderam ver pela primeira vez filmes como Claro (feito na Itália) e O Leão de Sete Cabeças (na África), que continuavam inéditos no Brasil. Só Di, o curta que Glauber dedicou ao pintor Emiliano Di Cavalcanti, não foi exibido.
Já estava interditado pela família do artista (e assim segue, até hoje, apesar do reitor da Universidade Federal da Bahia, Heonir da Rocha ter encaminhado, à Presidência da República, pedido de tombamento do filme como "Bem Cultural").
Há, porém, um estrangeiro na história da recuperação de Terra em Transe. Ele só não é norte-americano. É alemão. Seu nome é Peter Schumann, organizador do Fórum de Cinema, uma das mostras parelelas do Festival de Berlim, e autor do livro História del Cine Latinoamericano (Editorial Legasa, Buenos Aires, 1988).
Calil rememora o papel de Schumann na epopéia que foi a história da recuperação de Terra em Transe : "O negativo original desse extraordinário filme desapareceu em incêndio no depósito de laboratório francês, nos arredores de Paris, durante a década de 70. Esse filmesó existe hoje graças à generosidade de Peter Schumann. Ele dispunha de um master do filme na Alemanha e o doou à Embrafilme, colaborando no esforço de recuperar a obra de Glauber."
No momento em que admiradores da obra de Humberto Mauro - inclusive dos mais de 200 curtas que ele realizou no Instituto Nacional do Cinema Educativo - lamentam a perda total de Euclides da Cunha (1944), a história da salvação de Terra em Transe (1967) merece ser rememorada.
Vale ainda endereçar pergunta aos que hoje zelam pelo legado fílmico de Mauro: será que o curta por ele dedicado a Castro Alves (1948) também foi para o vinagre?